Cavaquinho


 
 
Introdução

O cavaco é o principal (muitas vezes o único) instrumento harmónico do samba. No entanto este pequeno cordafone consegue sozinho ser responsável por muito do 'pedal' do samba, principalmente quando o cavaquinhista domina a técnica da palhetada. É essencial tocar de forma sincopada, seguindo o ritmo do tamborim, para que ele solte todo o seu sentimento.

Uma outra característica importante do cavaco, é que ele não tem a função de baixo, como por exemplo uma viola. Por essa razão, muitos acordes que seriam distintos, pela eliminação do baixo passam a ser o mesmo, o que por um lado simplifica a forma de tocar (a mesma posição pode corresponder a vários acordes) e por outro permite compreender a harmonia a um nível mais intrínseco (nomeadamente as substituições).

A afinação usada nesta secção é a afinação tradicional (da corda mais grave para a mais aguda: Ré-Sol-Si-Ré), embora também se utilize a afinação Ré-Sol-Si-Mi, igual à das quatro cordas mais agudas da viola, principalmente para solar, pois aumenta a extensão do instrumento.

Nesta secção deixo essencialmente acordes, e algumas progressões. Para obteres dicas, técnicas de palhetada, cifras, etc, consulta a secção de links.

Acordes para Cavaco

Os quadros seguintes não incluem todos os acordes possíveis, apenas os mais simples ou mais usuais. O cavaquinho tal como todos os instrumentos de cordas permite bastante diversidade de montagens, com graus variáveis de dificuldade. No entanto com os acordes seguintes já podes acompanhar praticamente qualquer música.

Notação

A notação empregue identifica o trasto a ser premido, desde a corda mais grave à aguda. Por exemplo 2 0 1 2, significa:

  • 2 - premir a corda Ré grave, no segundo trasto
  • 0 - a corda Sol toca solta
  • 1 - premir a corda Si, no primeiro trasto
  • 2 - premir a corda Ré aguda, no segundo trasto
O que resultaria na seguinte armação:
__O____
|_|_O_|
O_|_|_O
|_|_|_|
| | | |

Notas sobre os acordes

Nos quadros de acordes apenas estão incluídos os acordes base (aqueles que têm pelo menos uma corda solta), sendo os restantes obtidos movendo todos os dedos um mesmo número de trastos. Por exemplo, Dó = 2012, para obteres Dó#, sobes todos os dedos um trasto (meio-tom), resultando Dó# = 3123, para obteres Ré, sobes todos os dedos dois trastos (um tom), resultando Ré = 4234, e assim sucessivamente. Para alguns acordes haverá várias hipóteses possíveis, que poderão ser usadas em situações diferentes. Experimenta em cada caso qual das possibilidades soa melhor, ou resulta mais simples.

Alguns acordes não listados, acordes com notas alteradas (#5 ou b5, #9 ou b9), obtém-se a partir dos acordes presentes, alterando a nota correspondente. Exemplo: E7=0102, a quinta é dada na corda Si solta, logo E7(#5)=0112.

Repara que como a primeira e a última corda do cavaco estão afinadas na mesma nota (Ré), qualquer posição pode ser invertida, trocando a última com a primeira corda. Por exemplo, as posições 3100 e 0103 são iguais (têm as mesmas notas). Nos quadros seguintes apenas incluí uma das posições, de forma livre, mas deves experimentar a posição inversa, pois pode resultar mais fácil numa dada progressão, ou soar melhor em determinado contexto.

Como o cavaquinho consegue quatro notas em simultâneo, é preciso dobrar uma nota nos acordes de três notas (tríades) e omitir uma ou mais notas nos acordes de quatro notas (tétrades) com extensões. Como regra, numa tríade nunca se pode omitir a terceira, pois é esta que permite distinguir se o acorde é maior ou menor. Da mesma forma numa tétrade nunca se podem omitir a terceira e a sétima. A tónica e a quinta tanto podem ser omitidas como dobradas. A dobragem da terceira (nas tríades) soa bem, mas a dobragem da sétima (nas tétrades) deve-se evitar pois resulta numa harmonia mais pobre (na prática também se usa, por exemplo G7=3003)

Por baixo de cada acorde estão ainda as notas que o compõem (tónica, quinta, terceira maior ou menor, etc). Podes consultar a notação usada para os acordes e respectivas notas aqui.
 
 

Tríades maiores e menores e acordes dominantes

Estes acordes permitem acompanhar a maior parte das músicas e efectuar as progressões básicas como II-V-I e I-VI-II-V.
 

 
M
m
7
Dó (C) 
2012
1011
2312
[ 3-5-1-3 ]
[ b3-5-1-b3 ]
[ 3-b7-1-3 ]
Dó # / Ré b (C# / Db)
 
3103
   
[ 3-5-b7-3 ]
Ré (D)    
0214
   
[ 1-5-b7-3 ]
Ré # / Mi b (D# / Eb)    
1021
   
[ 1-3-b7-1 ]
Mi (E)
2102
2002
0102
[ 1-3-5-1 ]
[ 1-b3-5-1 ]
[ b7-3-5-1 ]
Sol (G)
0000
 
3000
[ 5-1-3-5 ]
 
[ b7-1-3-5 ]
Sol # / Lá b (G# / Ab)  
1101
 
 
[ 5-1-b3-5 ]
 
Lá (A)    
2022
 
[ 5-b7-3-5 ]
Si (B)     
1204
   
[ 3-b7-1-5 ]

Acordes de sexta e m7

O acorde maior de sexta tem as mesmas notas que o acorde menor de sétima do relativo menor (por exemplo Ré 6 = Si m7)
 

 
6
m7
Dó # / Ré b (C# / Db)
 
2102
 
[ b3-5-b7-b3 ]
Ré (D)
0204
0213
[ 1-5-6-3 ]
[ 1-5-b7-b3 ]
Mi (E)
 
0002
 
[ b7-b3-5-1 ]
Fá (F)
3210
 
[ 1-3-5-6 ]
 
Sol (G)
0002
 
[ 5-1-3-6 ]
 
Lá (A)
 
2012
 
[ 5-b7-b3-5 ]
Si (B)
 
0204
 
[ b3-b7-1-5 ]

Acordes m7(b5), m6 e 7(9)

Os acordes m7(b5), m6 e 7(9) estão relacionados como modos/graus da escala menor melódica. Estes acordes podem funcionar como substituições uns dos outros pois têm as mesmas notas, apenas variando o baixo. Como no cavaco não há baixo, estes acordes são permutáveis, por exemplo 0113 = Dm7(b5) = Fm6 = Bb7(9).
 

 
m7b5
m6
7(9)
Dó (C) 
   
2310
   
[ 3-b7-1-9 ]
Dó # / Ré b (C# / Db)
2002
 
3101
[ b3-b5-b7-b3 ]  
[ 3-5-b7-9 ]
Ré (D)
0113
0203
 
[ 1-b5-b7-b3 ]
[ 1-5-6-b3 ]
 
Ré # / Mi b (D# / Eb)
   
1023
   
[ 1-3-b7-9 ]
Mi (E)
 
2022
0104
 
[ 1-b3-6-1 ]
[ b7-3-5-9 ]
Fá (F)
3101
0113
 
[ 1-b3-b5-b7 ]
[ 6-b3-5-1 ]
 
Sol (G)
   
0203
   
[ 5-9-3-b7 ]
Sol # / Lá b (G# / Ab)
4100
3101
 
[ b7-1-b3-b5 ]
[ 6-1-b3-5 ]
 
Lá (A)
1011
   
[ b5-b7-b3-b5 ]    
Lá # / Si b (A# / Bb)
 
3023
0113
 
[ 5-6-b3-5 ]
[ 3-b7-9-5 ]
Si (B)
0203
4100
 
[ b3-b7-1-b5 ]
[ 5-6-1-b3 ]
 

Acordes de sétima diminuta e de 7(b9)

Os acordes diminutos usam-se como acordes de passagem (cromáticos) ou como sétimo grau em tonalidades menores. Como as notas de um acorde diminuto estão espaçadas de uma 3ª menor (1, b3, b5, bb7), acordes diminutos cujos baixos distem de um múltiplo de uma 3ª menor, têm as mesmas notas (por exemplo Co7 = Ebo7 = Gbo7 = Ao7). Por isso na verdade apenas existem três acordes o7 diferentes. No cavaquinho usa-se apenas uma montagem para acordes diminutos:

Do7 = Fo7 = G#o7 = Bo7 = 0103
Todas as outras montagens se obtém a partir desta.

Existe uma relação entre os acordes de sétima diminuta e de sétima dominante com b9. Se tirarmos a tónica a um acorde de 7(b9) resta-nos um acorde diminuto. Podemos obter as montagens de 7(b9) a partir das montagens de 7(9) baixando meio-tom a 9ª. No fundo obtemos também uma montagem principal para os acordes 7(b9):

C#7(b9) = E7(b9) = G7(b9) = Bb7(b9) = 0103


 
o7
7(b9)
Dó # / Ré b (C# / Db)
 
3100
 
[ 3-5-b7-b9 ]
Ré (D)
0103
 
[ 1-b5-bb7-b3 ]
 
Ré # / Mi b (D# / Eb)
 
1022
 
[ 1-3-b7-b9 ]
Mi (E)
 
0103
 
[ b7-3-5-b9 ]
Fá (F)
3100
 
[ 1-b3-b5-bb7 ]
 
Sol (G)
 
0103
 
[ 5-b9-3-b7 ]
Lá # / Si b (A# / Bb)
 
0103
 
[ 3-b7-b9-5 ]

Outros acordes: add9, 6(9), 7M, 7M(9), 7(13), 7sus
 
 

Quadro geral de acordes

Podes obter um quadro com todos os acordes mencionados até agora aqui.
 
 

Progressões

A música tonal usa frequentemente progressões típicas (clichés harmónicos), das quais algumas se reproduzem nos quadros seguintes. Podes consultar a lista de progressões na secção sobre harmonia.

I - vi - ii - V - I



I
vi
ii
V7
I
C Am Dm G7 C 2012
5555
2212 3233 3000
3435
5465
2012
5555
C# A#m D#m G#7 C# 3123 3323 4344 4111
4546
3123
D Bm Em A7 D 4234 4434 2002
5355
2022
5222
5657
4234
D# Cm Fm A#7 D# 5345 1011
5545
3113 3133
6333
5345
E C#m F#m B7 E 2102 2122 4224 1204
4244
7444
2102
F Dm Gm C7 F 3213 3233 5335 2312
5355
8555
3213
F# D#m G#m C#7 F# 4324 4344 1101 3103
3423
4324
G Em Am D7 G 0000
5435
2002
5355
2212 0214
4214
4534
0000
5435
G# Fm A#m D#7 G# 1111 3113 3323 1021
5325
5645
1111
A F#m Bm E7 A 2222 4224 4434 0102
2132
2222
Bb Gm Cm F7 Bb 3333 5335 1011
5545
1213
3243
3333
B G#m C#m F#7 B 4444 1101 2122 2324
4354
4444

I - IV - iv6 - I



I
IV
iv6
bVII7(9)
I
C F Fm6 C 2012
5555
3213 0113 2012
5555
C# F# F#m6 C# 3123 4324 1224 3123
D G Gm6 D 4234 0000
5435
2335 4234
D# G# G#m6 D# 5345 1111 3101 5345
E A Am6 E 2102 2222 4212 2102
F Bb Bbm6 F 3213 3333 5323 3213
F# B Bm6 F# 4324 4444 0104 4324
G C Cm6 G 0000
5435
2012
5555
1215 0000
5435
G# C# C#m6 G 1111 3123 2326 1111
A D Dm6 A 2222 4234 0203 2222
A# D# D#m6 A# 3333 5345 1314 3333
B E Em6 B 4444 2102 2425 4444

i - iio - V7(b9) - i



i
iio
V7(b9)
i
Cm Dm7(b5) G7(b9) Cm 1011
5545
0113 0103 1011
5545
C#m D#m7(b5) G#7(b9) C#m 2122 1223 1214 2122
Dm Em7(b5) A7(b9) Dm 3233 2334 2325 3233
D#m Fm7(b5) A#7(b9) D#m 4344 3101 0103 4344
Em F#m7(b5) B7(b9) Em 2002
5355
4212 1214 2002
5355
Fm Gm7(b5) C7(b9) Fm 3113 5323 2325 3113
F#m G#m7(b5) C#7(b9) F#m 4224 0104 0103 4224
Gm Am7(b5) D7(b9) Gm 5335 1011
1215
1214 5335
G#m A#m7(b5) D#7(b9) G#m 1101 2122
2326
1022
2325
1101
Am Bm7(b5) E7(b9) Am 2212 0203 0103 2212
A#m Cm7(b5) F7(b9) A#m 3323 1314 1214 3323
Bm C#m7(b5) F#7(b9) Bm 4434 2002
2425
2325 4434

 
 

© Pedro A. G. Batista 2001-2002