última revisão 26/Nov/2002
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O pandeiro é a essência
dos instrumentos de samba, representando de forma exemplar o processo de
reinvenção brasileira dos instrumentos tradicionais trazidos
pelos portugueses. Tocado à moda brasileira, o pandeiro é uma
mini-bateria, capaz de produzir diversos timbres diferentes: a pancada com
o polegar (abafada ou não) dá-nos os baixos potentes, as diversas
pancadas e estaladas com os dedos na pele dão-nos as tarolas e os
toms, e as 'caricas' a abanar ou a trilhar, dão-nos os pratos.
Tipos de pandeiros Os pandeiros são normalmente classificados pela dimensão, tipo de pele e caricas (platinelas) e pela sua função. O tamanho varia entre 10" e 14", usando-se normalmente um pandeiro de 12" como um valor standard. Em regra quanto maior o pandeiro, mais som produz, mas também mais difícil é de tocar, devido ao peso acrescido. No entanto compensa começar por um pandeiro maior, para 'ganhar braço' (se aprenderes a tocar num de 12'' depois tocas em qualquer um, mas se começares por um de 10'', embora pareça mais fácil ao início, terás dificuldade em te adaptar a um pandeiro maior mais tarde). O som do pandeiro depende de uma combinação de factores: os materiais usados, a grossura do aro, o tipo de pele, o material e combinação de caricas, e claro da afinação. Somente tocando um pandeiro depois de bem afinado é que podemos saber o som que ele consegue dar. As peles usadas podem ser:
pele normal sintética (mais comum para samba, produz pouco som, poucos
graves), pele dupla sintética, normalmente com holograma (mais adequada
a pagode pois permite sons mais graves e secos) e ainda pele natural. A pele
natural é muito agradável de tocar, quer pelo ressalto acrescido
da pele, quer pelo efeito de "surdo" que permite, devido à reverberação
da pele animal. Um pandeiro de 10" ou 11" com pele natural é uma curte
:) As caricas podem variar muito em termos de sonoridade. Aparentemente existem duas combinações: três pratos - dois exteriores e um central (normalmente prateados), ou cinco pratos - em que além dos três anteriores existem dois externos mais pequenos (normalmente dourados). Os materiais usados são muito importantes, resultando em intensidades de som muito diferentes (em geral quanto mais som produzirem, melhor). Também existem pandeiros com caricas duplas, isto é dois conjuntos um acima do outro, mas são mais para o show, até porque fica demasiado largo para outra coisa que não seja girá-lo na ponta do dedo. Em termos de marcas só interessam as brasileiras, pois é no Brasil que eles sabem tocá-los e fazê-los. Existe uma variedade de pequenas marcas de boa qualidade, como "O Profissional", e também artesãos especializados que produzem verdadeiras obras de arte, mas deste lado do Atlântico o mais provável é só vires a encontrar uma das marcas industriais, como Contemporânea, RMV, Gope, Ascenção/Lecsom/Excelsior, ou Raul. Qualquer destas marcas produz bons pandeiros, é uma questão de veres qual dos modelos te interessa mais. A Contemporânea faz um 12'' muito bom, para um pandeiro feito em série, mas actualmente a RMV tem também uma linha de grande qualidade. Qualquer destas marcas se encontra aqui em Portugal com alguma facilidade (pergunta nas escolas de samba). Finalmente a função tem a ver com o género a que se destina. Um pandeiro para samba tem que ser grande para dar bastante som, mas não precisa de pele muito sonora. Ao contrário um pandeiro para pagode precisa não só de caricas que soem bem, como de uma pele mais grossa que dê sons graves e secos. Para choro usa-se mais a pele natural, e por exemplo para capoeira convém que as caricas tenham imensa folga, para chocalharem bastante. Para um pandeiro polivalente
recomento um pandeiro de 12'', com pele dupla sintética e de preferência
de 5 caricas. Podes também comprar uma pele natural de 12 para experimentar.
Afinação
A afinação do pandeiro segue os mesmos princípios básicos da afinação de qualquer instrumento de percussão. Todos os apertos devem estar à mesma pressão, e deve-se proceder gradualmente, apertando uniformemente a toda a volta. Podes determinar se a pressão dos apertos é uniforme batendo na pele com a unha junto a cada aperto e verificando que o tom geral é sempre o mesmo. Se junto a um dos apertos o som for mais grave, aperta ligeiramente cada um desse grupo de apertos e volta a verificar o tom a toda a volta. Ao apertar o pandeiro deves também um padrão cruzado, isto é, apertas um de um lado e outro do lado oposto, saltando entre as extremidades do pandeiro. Se começas por apertar tudo de um lado, ou se vais apertando à volta, a pele vai-se descentrar, ficando puxada para esse lado. Para evitar isso a pressão dos apertos deve ser aplicada gradualmente e uniformemente em torno de toda a pele. Afinar o pandeiro mais agudo ou mais grave depende do gosto pessoal, mas normalmente cada pandeiro tem um ponto de equilibrio em que o som é mais rico. É uma questão de procurar. Os pandeiros de pele sintética normalmente precisasm de estar bem apertados (sem exagerar), enquanto que os de pele natural podem ficar mais folgados, para não perderes o baixo (o "surdozão").
Notação usada A notação empregue nesta secção é a notação inglesa, pois é mais conhecida e depois de memorizada torna-se simples de usar. Podia ter optado pelas iniciais portuguesas, mas é tudo P's, B's e D's, o que resultaria numa grande confusão. De qualquer forma a notação é apenas 10% da questão, o mais importante, o swing, isso não se pode escrever.
Movimentos básicos Segurar o Pandeiro Mecânica básica
A notação para este movimento é: t f h f t f h f Treina este movimento até
o conseguires fazer bastante rápido e de forma instintiva. Procura
obetr um bom suíngue. No início vais-te cansar rapidamente,
tanto na mão direita que toca o ritmo, como na mão esquerda
que segura o pandeiro, mas é preciso insistir até conseguires
manter este ritmo certinho durante bastante tempo. Antes de dominar minimamente
este passo inicial não vale a pena tentar mais nada. Abafando a Pele
O ritmo anterior passa então a ser: t f h f T f h f
A técnica de abafar
presta-se a ser também usada para marcar os contratempos com a mão
esquerda, tendo também um efeito criativo, usando uma técnica
parecida com o tamborim. A Estalada
Incluir estaladas (S) no quarto tempo no nosso movimento básico resulta nas possibilidades seguintes: t f h S T f h f t f h f T f h S t f h S T f h S
Gingando o Pandeiro Deves desenvolver a tua própria fluência no gingado, observar os grandes mestres, e tentar encontrar os caminhos intuitivos para movimentar o pandeiro, mas aqui vão algumas dicas que poderão ajudar: Samba (t-f-h-f...) O gingado no padrão de samba segue o movimento natural do pandeiro resultante da técnica empregue. Quando o polegar dá a pancada, o bordo do pandeiro desce ligeiramente, e na pancada seguinte com as pontas dos dedos há uma tendência para levantar o bordo oposto do pandeiro batendo também com ele nas pontas dos dedos. Deves procurar reforçar esse abanar do pandeiro da primeira para a segunda pancada, usando o pulso esquerdo para virar o pandeiro. Seguidamente para dar a pancada com a base da mão volta a trazer o pandeiro à horizontal, batendo com ele de encontro ao 'calcanhar' da mão. Finalmente dá o quarto tempo sem virar o pandeiro (em algum ponto se teria que descansar :). Podes imaginar que a mão
que toca funciona um pouco como uma alavanca, que faz girar o pandeiro em
torno do seu eixo (na continuação do braço que segura).
O polegar primeiro empurra o pandeiro para baixo, de forma a que o bordo oposto
gira em direcção da ponta dos dedos. Ao bater nos dedos estes
interrompem o movimento e empurram o bordo de cima no sentido inverso, em
direcção à base da mão que novamente interrompe
o movimento, com o pandeiro novamente na horizontal. A mão que segura,
durante todo este processo funciona apenas como um eixo, embora ajude à
realização do movimento. No início talvez seja melhor
concentrares-te na segunda pancada, aquela em que mais nitidamente viras o
pandeiro em direcção aos dedos, mas convém compreender
todo o movimento, do princípio ao fim do t-f-h. Se pousares a ponta do
pandeiro em qualquer sítio, enquanto seguras normalmente com a mão
esquerda, e tocares o ritmo de samba, vais reparar que o pandeiro se move
de uma forma natural... é este movimento que tens que reproduzir quando
tocas. Para treinar, podes virar vez sim vez não, usando por exemplo este ritmo (abanas apenas no primeiro "f"):
e de vez em quando abanando sempre (em todas as segundas pancadas). Outro ritmo bom pra treinar é este de capoeira:
E para um shake mais avançado:
Ao fazeres este último ritmo, repara que o 'h' final é facilitado pelo movimento do pandeiro (que está a voltar à horizontal e bate na base da mão), o que facilita fazer a pancada com o polegar imediatamente asseguir. Na prática, sempre que num dado ritmo ocorra a sequência t-f-h, deves fazer este virado para melhorar o som. Divide o movimento pelas duas mãos de forma balanceada, de forma a que cada uma das mãos facilite o trabalho da outra (se a mão que segura também virar o pandeiro, a mão que toca não tem que se mexer tanto). Lembra-te, como tudo no samba, tem que ser natural e ergonómico. Não tentes virar muito até lhe apanhares o jeito, basta um jeitinho subtil, mas depois vai progressivamente empregando mais força e determinação na prática. Se fizeres bem este gingado, praticamente já dás o ritmo todo do samba só com o abanar da mão esquerda... :) Partido Alto Quando alternas estaladas
com pancadas com o polegar, como nos ritmos de partido-alto, convém
reduzir o espaço que a mão tem que viajar, virando o pandeiro
em direcção à mão na altura da estalada, e de
volta ao encontro da base da mão para a pancada com o polegar. Nestes
ritmos o pandeiro bate mesmo na mão, o que não só resulta
mais sonoro (pois permite estaladas mais fortes, e reforça o bater
das caricas) como dá mais estilo a tocar :) Finalmente não te esqueças, o balanço tem que ser natural, treina bastante e procura o teu jeito próprio.
O suingue do pandeiro
Há várias formas de marcar os quatro tempos, a mais simples foi descrita no ponto anterior (t-f-h-f), no entanto para criar diversidade e interesse, convém ir variando, inserindo um ou vários dos movimentos seguintes por entre os compassos de movimento básico (nota: os F's também podem ser S's) T F H F Estes movimentos são
todos standard, mas há outras formas... Por exemplo, reza a lenda
que o Marcos Suzano usa um padrão diferente que ele inventou. Já
me disseram que tem a ver com dar também baixos com o dedo médio,
mas como poderás confirmar, isto só resulta num pandeiro de
pele natural bem folgada. Nessas condições, o ritmo t-f-h-f
-T-f-h-f soa quase igual a t-f-h-t-T-f-h-T. Podes e deves combinar estes movimentos, eis alguns exemplos: 1 2 3 4 1 2 3 4 1
2 3 4 1 2 3 4
Nota:
procurei certificar-me que todas as patterns nesta página estavam correctas,
no entanto pode-me ter escapado algo, por isso se encontrares alguma incorrecção
nas patterns, ou quizeres contribuir alguma pattern interessante (eu incluirei
o nome de quem a enviou), por favor escreve-me.
t f h f T f h f t f h S T f h S t f h f T F h F t f h f T f T f t f h f T T f T t f h f T f h T t ==h f T ==h f t f h S * T f T * S * S T * S T etc...
Entradas ======h F * T * S * * * * * * * [t f h f...] * * * * ====h f t f h S T f T f [t f h f...]
O ritmo de partido alto é o principal ritmo para tudo quanto é pagode. O ritmo básico é o seguinte (mais detalhe sobre o ritmo do partido alto aqui) : 1 2 3 4 1 2 3 4 1
2 3 4 1 2 3 4 Claro que sobre esta 'clave' se fazem muitas variações. Um padrão muito popular é (repara que neste ritmo o polegar marca sempre o "um"): 1 2 3 4 1 2 3 4 1
2 3 4 1 2 3 4 No entanto, o que soa bem é variar sobre este padrão ritmico, enchendo certas partes (preenchendo as pausas nos ritmos acima) mas mantendo a ênfase no padrão básico; O que enriquece o partido é esta alternância entre o padrão básico espaçado, e períodos em que se marcam os quatro tempos. Por exemplo, o ritmo básico
que vimos atrás, pode ser 'enchido' em vários sítios.
Algumas possibilidades são (podes combinar várias das sujestões,
mantendo sempre o suíngue do partido mas evitando estar sempre a
fazer o mesmo):
O ritmo final (completamente 'cheio') pode ser 'invertido', começando em qualquer um dos quatro compassos: 1 2 3 4 1 2 3 4 1
2 3 4 1 2 3 4 No outro ritmo popular
que vimos , podemos fazer o mesmo. Eis alguns exemplos:
O ritmo completamente 'cheio' a que chegamos é o mesmo que o do padrão anterior (com algumas pancadas dos dedos substituidas por estaladas), só que começa noutro ponto. Finalmentes podes também fazer variações (fills), de vez em quando ao virar de cada quatro ou oito compassos (a seguir encadeias o partido básico). Por exemplo: 1 2 3 4 1 2 3 4 1
2 3 4 1 2 3 4 [1]
Nota: nestas variações
podes em vez das pausas (*) dar mesmo a pancada correspondente ("f" entre
"tês" ou "h" entre "ésses"), embora com mais leveza, como se
fosse uma 'ghost note'. Isto acontece naturalmente com a prática,
pois a mão já se dirige para lá instintivamente.
Ritmos nordestinos
Este primeiro ritmo é característico das emboladas. Tem duas passagens de base-da-mão para polegar (3ª para 4ª pancada do primeiro tempo, e fim do segundo tempo para início) 1 2 3 4 1 2 3 4 [1]
Na ultima pancada (o último "h" na quarta pancada) podes usar um 'truque' que é bater já um pouco com as costas da mão. A mão vai lá acima dar a estalada, enquanto o pandeiro roda prá vertical. Quando a mão volta pra baixo, bate no pandeiro que retorna à horizontal, com o bordo externo da mão, um pouco com as costas, e logo de seguida roda para dar a pancada com o polegar. Isto permite fazer a técnica mais rápido e com muito suíngue. Os mestres conseguem fazer este ritmo abanando violentamente o pandeiro e deslizando a mão sobre ele de uma forma que parece quase impossível :) Algumas variações: T f h T f h f h T f h T f h T f T f h T T f h f T f h T T f T f T f h T f h f T T T f T f h f h T T S T f h S h 1 2 3 4 1 2 3 4 1
2 3 4 1 2 3 4 No ultimo exemplo fazemos quatro pancadas à moda do samba (T-f-h-f) no final. Se reparares, embora ao princípioseja confuso, soa bem alternar este padrão nordestino com o padrão básico. Assim este tipo de ritmos também pode ser usado para fazer variações de samba, por exemplo: 1 2 3 4 1 2 3 4 1
2 3 4 1 2 3 4
Tercinas e compasso ternário
1 2 3 1 2 3
1 2 3 1 2 3 1 2 3
1 2 3 1 2 3 4 1 2 3 4 1
2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 1 2 3 1 2 3
1 2 3 1 2 3 1 2 3 1 2 3 1 2 3
Capoeira Os ritmos de capoeira são
relativamente simples, mas o segredo está no gingado que dás
ao pandeiro. Ao dar a primeira pancada com o polegar, deixa o pandeiro ir
bem abaixo, fazendo um gingado como no samba, e enfatizando
ao máximo o som das caricas. Angola T * ^ v T * S * T v ^ v T * S * T ==h f T * S * ====h f T * S * Regional T ^ v T T * S * T ^ v S T * S * t f h f T * S * t f h T T * S * Virada (não te entusiasmes, repara que normalmente compete ao atabaque fazer a virada) [1 2 3 4 1 2 3 4]
1 2 3 4 1 2 3 4
Candomblé (6/8) T f h f h f T f h S h f T f h S h T T f h S T T T f h S * S T f h S h S
Hip Hop / Jungle Aqui estão duas
patterns (com algumas variações, inventa outras) que uso para
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© Pedro A. G. Batista 2001-2002